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Por que tantas mulheres descobrem o autismo apenas na vida adulta?

1 de ago.
4 min de leitura

O diagnóstico tardio de autismo em mulheres tem chamado atenção porque muitas passam décadas tentando compreender características que sempre estiveram presentes...


Durante muitos anos, o autismo foi associado quase exclusivamente à infância e, principalmente, aos meninos. Essa visão fez com que milhares de meninas crescessem sem receber uma explicação para aquilo que sentiam, percebiam e enfrentavam todos os dias.

Muitas ouviram frases como:

"Você é tímida demais."

"Você pensa demais."

"Você precisa aprender a conviver com as pessoas."

"Você é muito sensível."

"Você é inteligente, então não pode ser autista."

Com o passar dos anos, essas mulheres aprenderam algo que parecia necessário para sobreviver: esconder partes de si mesmas.

Algumas passaram a observar cuidadosamente como as outras pessoas falavam.

Decoraram expressões faciais.

Treinaram respostas.

Ensaiaram conversas.

Imitaram comportamentos.

Sorriram quando estavam completamente exaustas.

Por fora, pareciam estar "funcionando".

Por dentro, muitas descrevem a sensação de viver representando um personagem.

Décadas depois, ao receberem o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma pergunta costuma surgir quase imediatamente:

"Como ninguém percebeu isso antes?"

Essa pergunta é legítima.

E a resposta é muito mais complexa do que parece.


O diagnóstico tardio não significa que o autismo apareceu depois

Uma das primeiras coisas importantes para entender é que o autismo não surge na vida adulta.

O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento. Isso significa que suas características estão presentes desde o início do desenvolvimento, embora possam se manifestar de maneiras diferentes ao longo da vida.

O que acontece é que algumas pessoas conseguem compensar determinadas dificuldades durante muitos anos.

Outras vivem em ambientes que, sem perceber, reduzem algumas demandas.

Há ainda quem desenvolva estratégias extremamente sofisticadas para parecer "igual às outras pessoas".

Essas estratégias podem funcionar durante muito tempo.

Mas geralmente têm um preço.

O preço invisível de parecer "normal"

Imagine passar décadas monitorando cada palavra antes de falar.

Analisando constantemente se sua expressão facial está adequada.

Pensando na postura correta.

No tom da voz.

No momento certo de rir.

No tempo ideal para olhar nos olhos.

Na forma como deve responder uma pergunta simples.

Para muitas mulheres autistas, isso não acontece apenas em situações importantes.

Acontece praticamente o tempo inteiro.

É um esforço mental contínuo.

Muitas relatam chegar em casa completamente esgotadas depois de um dia de trabalho, mesmo quando aparentemente "não aconteceu nada demais".

Esse desgaste constante passou a ser estudado por pesquisadores e recebeu um nome bastante conhecido atualmente:

camuflagem social, também chamada de masking.

Estudos mostram que a camuflagem social é um dos fatores que contribuem para o subdiagnóstico e para o diagnóstico tardio em mulheres autistas, além de estar associada a maior exaustão emocional, ansiedade e sofrimento psicológico.

Durante muitos anos, a ciência olhou principalmente para os meninos

Esse é um ponto que poucas pessoas conhecem.

Os primeiros estudos sobre autismo foram realizados, em sua maioria, com populações masculinas.

Consequentemente, muitos critérios clínicos, descrições e instrumentos de avaliação foram construídos observando comportamentos que apareciam com mais frequência em meninos.

Isso não significa que estejam errados.

Significa apenas que o conhecimento científico evolui.

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a observar que muitas meninas e mulheres autistas apresentavam características diferentes das descritas nos estudos clássicos.

Essas diferenças não tornam o diagnóstico "mais leve".

Apenas tornam sua identificação mais difícil.

Revisões recentes destacam que fatores sociais, culturais e os estereótipos de gênero influenciam significativamente o reconhecimento do autismo em mulheres, contribuindo para o diagnóstico tardio.

Quando ser "educada" esconde o sofrimento

Desde pequenas, muitas meninas recebem mensagens como:

  • "Seja delicada."

  • "Não responda."

  • "Sorria."

  • "Se comporte."

  • "Observe primeiro."

Essas expectativas sociais podem levar algumas meninas autistas a desenvolver comportamentos de adaptação muito cedo.

Em vez de demonstrar claramente suas dificuldades, elas aprendem a escondê-las.

Em vez de evitar completamente o contato social, podem observar cuidadosamente como as outras crianças interagem e tentar reproduzir esses comportamentos.

Isso não significa que estejam confortáveis.

Significa apenas que aprenderam a sobreviver naquele ambiente.

É justamente por isso que muitos especialistas defendem que compreender o chamado "fenótipo feminino do autismo" é fundamental para reduzir o subdiagnóstico.

A sensação de ser diferente sem saber por quê

Existe um relato que aparece repetidamente entre mulheres diagnosticadas na vida adulta.

Elas dizem coisas como:

"Passei a vida inteira tentando descobrir o que havia de errado comigo."

Outras contam que receberam diversos diagnósticos antes do autismo.

Algumas foram tratadas durante anos apenas para ansiedade.

Outras para depressão.

Algumas ouviram que eram "sensíveis demais", "dramáticas", "perfeccionistas" ou "difíceis".

É importante esclarecer que ansiedade e depressão podem realmente existir e precisam ser avaliadas e tratadas quando presentes.

O ponto é que, em algumas pessoas, essas condições coexistem com o autismo ou acabam chamando mais atenção do que as características do TEA durante a avaliação clínica.

Minha história também começou com perguntas

Durante muitos anos, eu não procurava um diagnóstico de autismo.

Eu procurava uma explicação.

Queria entender por que determinadas situações pareciam tão simples para outras pessoas e tão cansativas para mim.

Por que determinados ambientes me deixavam exausta.

Por que eu precisava de tanto tempo sozinha para recuperar minhas energias.

Por que eu sempre sentia que existia um manual da vida adulta que todos haviam recebido, menos eu.

Quando finalmente comecei a compreender minha própria história, muitas peças passaram a fazer sentido.

Foi justamente dessa experiência que nasceu o livro "Quando Meu Corpo Fez Sentido".

Se você chegou até este artigo porque também está tentando compreender sua própria trajetória, talvez essa leitura faça sentido para você.

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