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 Uma Nova Identidade

15 de set.
3 min de leitura




Eu jamais imaginei que a minha história começaria a ser entendida através dos meus netinhos


Minha filha mais nova se casou e teve dois meninos, os dois receberam diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. A partir daí, a rotina da minha filha mudou completamente. 


Consultas, Centro de reabilitação, psicóloga, psiquiatra. Enquanto ela levava os meninos a Psiquiatra começou a observar a minha filha e resolveu fazer uma avaliação nela, minha filha concordou, resultado ela também é autista.


Tempo depois, quando ela foi me visitar, ela me disse : — Mãe você é igual aos seus netinhos, marquei uma consulta para você, com a psiquiatra dos meninos. 


Eu ri e disse — Eu estou bem, não preciso de psiquiatra.  — Pensei — Será que ela marcou a consulta por causa  de tudo o que passei com o pai dela? — Ponderei. 


No dia marcado fui na consulta, pensando que a médica iria perguntar sobre os 18 anos de casamento abusivo.


Para a minha surpresa a médica nada perguntou a esse respeito, ela perguntou sobre a minha infância, meus pais, minha vida social, respondi vários,  questionários, testes.


Foram consultas, muitos questionários.


Parecia que ela estava montando o quebra cabeça da minha vida.


 Então numa consulta ela abriu o prontuário


Sorriu para mim, eu respirei fundo.


—Terminamos toda a sua avaliação


Meu coração disparou, ela olhou diretamente para mim.


— Mag Você tem o Transtorno  do Espectro Autista


Silenciou


— Também tem TDAH 


Silenciou Novamente 


E o TOC


Ficou em silêncio me olhando durante alguns segundos.


Eu apenas olhava para ela, enquanto cenas da minha vida passavam em minha mente em questão de segundos.


— Então foi por isso, que eu não reagi? — Pensei


— Posso te Fazer uma pergunta?


— Sim claro!


— Uma pessoa com um diagnóstico igual ao meu, vivendo sobre violências, humilhação, cárcere privado. Qual seria as reações dela frente a tudo isso?


— Essa pessoa poderia desligar-se completamente para sobreviver a tudo isso, além das crises de choro e isolamento, ela ficaria inerte nessa situação.


— Obrigada dra.


Respirei fundo


E pela primeira vez permitir que meus dedos dos pés mexessem continuamente enquanto eu batia meus dentes de  forma melódica, essa foi a maneira que eu substituí, os saltos, os giros e o balançar das mãos e das pernas.


Suspirei, mas ainda não tinha muitas perguntas para serem feitas.


— Existe um nome para tudo isso.-- Pensei


Eu não era idiota, lesada, lerda, esquesita, tapada, a partir daquele dia tudo começou a fazer sentido


— Eu não sou doente. Pensei


— Meu cérebro funciona de uma maneira diferente, só isso, está tudo bem Mag! Está tudo bem, Mag! Você não está mais sozinha? Lembra? Jesus está no barco junto com você está tudo bem Mag! Respire! Viu Está tudo bem!


Saí do consultório com o laudo e ainda processando tudo isso, recebi o Laudo com 52 anos e só depois de 2 anos a ficha caiu de fato e de verdade. Levei 2 anos para compreender  e aceitar


Embora eu não entendesse tudo o que tinha acontecido comigo


Eu finalmente levava comigo a minha identidade


Quando escolhi o título deste livro compreendi


Não foi por causa da palavra autista


foi porque pela primeira vez na minha vida eu deixei de lutar contra quem de fato eu era


Eu finalmente entendi quem eu  era, o meu jeito de ser, de pensar, de sentir e de agir.


Pela primeira vez na minha vida, olhei para mim sem culpa.

Sem peso, sem acusações, apenas com a verdade 

E, naquele dia, o meu corpo fez sentido.


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